quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Mr. Robott: entre o Capitalismo e a Esquizofrenia(e sem Spoilers)

Que a série Mr. Robbot é surpreendente disto sabemos. De um lado, conseguiu o grande feito (que talvez só tenha conseguido uma outra obra de escol, como Tempos Modernos) de ser crítica de capitalismo sem ser propaganda-mal elaborada ou um panfleto de uma proposta política vulgar.De outro lado é  um drama pessoal de um jovem programador (Elliot)e Hacker nas horas vagas que planeja a sua “ revolução alternativa” contra o Sistema de Corporações Capitalistas no EUA.   Entre a crítica social( ou seria a perfeição de desnudar do real) e o seu ponto de chegado, uma rede de conspirações e associações corruptas e sujas, o drama pessoal do “fazer a vida” de cada um nos EUA(o imigrante, o jovem branco de classe média baixa, os aspirantes a Gerentes e Diretores de grandes empresas) com o toque correto de violência e sexo banalizados pela lógica do sistema.E no meio disso tudo há Elliot , um jovem “esquizofrênico”.




            Talvez o ponto mais alto da crítica esteja no desnudar a realidade e não simplesmente dar sentido a ela. Mostrar a realidade de um mundo que embora estejamos nele, não percebemos. Não percebemos  os outsiders do sistema(pobres, imigrantes e excluídos) ,porque todos estão submersos na luta diária pela sobrevivência e todos (ou quase todos) estão aspirando ao seu cargo de Gerente ou Diretor.(CTO na série).Mas, a fotografia da série(tão bem aclamada pela crítica) capta esses instantes da realidade não- vista. E ,portanto, desnuda a paisagem de Wall Street com seus manifestantes e os grandes arranca-céus com seus mendigos expostos à olhos nus. Demonstra a Midia Americana,porque afinal ela mesma não passa de outra face do poder, como a polícia e o FBI , conforme se desenrola a trama e o espectador percebe que nada escapa aos olhos das grandes corporações capitalistas.Vemos a trama pelos olhos de Elliot que é o personagem principal e o narrador que compara a vida com a linguagem da programação da Informática .Nesse estágio avançado do capital, todos os estágios da vida humana estão submetidos a sua linguagem de dominação-libertação: a tecnológica. Esse paradoxo também é exposto de maneira magistral na Série? Podemos revolucionar o mundo através do Facebook? Marx dizia que a Tecnologia poderia libertar o homem do fardo do trabalho. Se não o Facebook(que é também  uma grande corporação) os Harckers podem fazer o seu Cyberativismo e derrubar o sistema.Até onde vai os limites de nosso personagem?



            Até o Sexo e a Violência que  quase sempre apelam para a provocação sensacionalista que as séries da atualidade exploram, em Mr. Robbot  são contextualizados dentro das relações sociais. O que a Violência nesse sistema desconfigurado¿ Algo banal e que serve ao poder. É o que o Sexo¿ Ferramenta para o Poder. Quero chamar atenção aqui para a exposição da Tara Sexual da esposa de um CTO na série. Sua Tara: o sadomasoquismo .Nada demais até aqui, Aliás, tara do casal. Os dois usam de seus desejos com seus subordinados na escala social.(Tyrell E ae cabe a leitura da critica da moral – burguesa . A moral da alta burguesia é hipócrita, como o é, em larga escala, a mídia, o aparelho de Estado, as religiões oficiais. Mas como se mostra sua hipocrisia¿ Pela desnudar do seu Fetiche. Se em Freud, o Fetiche é um símbolo que oculta o verdadeiro objeto de desejo, a classe social burguesa também oculta o seu verdadeiro desejo, tanto de si mesma, como das outras classes sociais que são objeto de seu sadismo. E os atores se esmeram em mostrar o sadismo da burguesia da cama ao cargo de Gerente de uma Corporação Capitalista, porque o abuso sexual em cargos de Gerência é também a expressão de uma dominação de uma classe social sobre a outra. Aqui fica uma fina contraposição, em relação a Arte Contemporânea, que só “fala” sobre o Sexo dentro do discurso dominante.





            Outras Questões somam-se ao enredo de nosso Herói comum. Fica difícil conceituar o jovem Elliot. Ele não é o herói, porque pouco nele há que  podemos desejar.Nem as suas fugas temporárias e delírios, o seu uso constante de Heroína e sua anti-sociabilidade o tornam atrativo. Mas também ele não é o Anti –Herói. Há momentos que torcemos para que os Hackers e a FSociety exponha todas as mazelas do sistema. Afinal de contas, não sabemos nada sobre as vultosas somas de dinheiro que as Corporações e os Governos controlam, enquanto todos nós vivemos uma vida de Empréstimos. Sim, o cidadão americano vive uma vida de Empréstimos: vida parcelada, fragmentada, dividida. Talvez nosso personagem principal esconda na sua doença mental, a esquizofrenia, uma tentativa de reunião dos aspectos fragmentários de si mesmo. Sem a “prestação diária” que fazem os que bebem as sextas-feiras no Happy Hour.
            Na sua “esquizofrenia” ( e raros são os filmes e séries que conseguem tocar em temas tão delicados como esse), nosso personagem principal desafia o sistema. Os diálogos mostram  ,como  no clássico “O Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago, que só há um personagem lúcido, que vê. Elliot é um jovem sem beleza, sem carisma, com uma doença mental, mas que é lúcido. E a sua esquizofrenia é tentativa de reconstruir sua trajetória de vida, sua infância, o seu relacionamento com a sua irmã(Darlene), seus poucos amigos e reconstruir(ou destruir) o sistema que lhe oprimi. Como fala Michel Foucault “ não é a psiquiatria que detém a verdade sobre a loucura, é a loucura que contém a verdade sobre a psiquiatria”. Não é  a Igreja e nem a Psiquiatra que Elliot freqüenta que tem a verdade sobre o  cisão do Homem, é a cisão do Homem que é  A VERDADE sobre a lógica atual.Aliás, os diálogos entre ele (Elliot)e sua psiquiatra são um brinde à parte.Reconstruir o sistema  mostrando as redes de corrupção e segredos da elite mundial, das corporações, do jogo sujo da Mídia através de uma tela de computador. Outros pontos adicionam-se a História como o problema dos Refugiados, a vida fria das grandes cidades e o Jogo de Controle Geopolítico entre EUA e China.


   

            Mr. Robot não é para os marinheiros de primeira viagem na existência,há uma complexidade notável na 1 e 3 Temporadas, dentro de um enredo bem construído, com atuações marcantes e diálogos reveladores.E o telespectador fica intimado  a fazer o seu papel.Na Linguagem da Informática , existe só dois códigos o 1 e o 0. Eu diria que o telespectador deve escolher um deles para representar o seu papel da contemporaneidade, embora o seu perfil político possa ser hackeado em cinco minutos no perfil nas Redes Sociais e essa pergunta possa ser respondida por um Robô analisando seus posts.Entre o 0 e 1 também não há um número inteiro, como também não há uma solução para a Revolução de Elliot, como também não há uma solução para o mundo Globalizado de Hoje, que não tem nem Heróis e nem Anti-Herois dispostos a construir os Mitos.


Um comentário: