Que a série Mr. Robbot
é surpreendente disto sabemos. De um lado, conseguiu o grande feito (que talvez
só tenha conseguido uma outra obra de escol, como Tempos Modernos) de ser
crítica de capitalismo sem ser propaganda-mal elaborada ou um panfleto de uma proposta
política vulgar.De outro lado é um drama
pessoal de um jovem programador (Elliot)e Hacker nas horas vagas que planeja a
sua “ revolução alternativa” contra o Sistema de Corporações Capitalistas no
EUA. Entre a crítica social( ou seria a perfeição
de desnudar do real) e o seu ponto de chegado, uma rede de conspirações e associações
corruptas e sujas, o drama pessoal do “fazer a vida” de cada um nos EUA(o
imigrante, o jovem branco de classe média baixa, os aspirantes a Gerentes e
Diretores de grandes empresas) com o toque correto de violência e sexo
banalizados pela lógica do sistema.E no meio disso tudo há Elliot , um jovem “esquizofrênico”.
Talvez o ponto mais alto da crítica esteja no desnudar a
realidade e não simplesmente dar sentido a ela. Mostrar a realidade de um mundo
que embora estejamos nele, não percebemos. Não percebemos os outsiders do sistema(pobres, imigrantes e
excluídos) ,porque todos estão submersos na luta diária pela sobrevivência e
todos (ou quase todos) estão aspirando ao seu cargo de Gerente ou Diretor.(CTO
na série).Mas, a fotografia da série(tão bem aclamada pela crítica) capta esses
instantes da realidade não- vista. E ,portanto, desnuda a paisagem de Wall
Street com seus manifestantes e os grandes arranca-céus com seus mendigos
expostos à olhos nus. Demonstra a Midia Americana,porque afinal ela mesma não
passa de outra face do poder, como a polícia e o FBI , conforme se desenrola a
trama e o espectador percebe que nada escapa aos olhos das grandes corporações
capitalistas.Vemos a trama pelos olhos de Elliot que é o personagem principal e
o narrador que compara a vida com a linguagem da programação da Informática .Nesse
estágio avançado do capital, todos os estágios da vida humana estão submetidos
a sua linguagem de dominação-libertação: a tecnológica. Esse paradoxo também é
exposto de maneira magistral na Série? Podemos revolucionar o mundo através do
Facebook? Marx dizia que a Tecnologia poderia libertar o homem do fardo do
trabalho. Se não o Facebook(que é também uma grande corporação) os Harckers podem fazer
o seu Cyberativismo e derrubar o sistema.Até onde vai os limites de nosso
personagem?
Até o Sexo e a Violência que quase sempre apelam para a provocação
sensacionalista que as séries da atualidade exploram, em Mr. Robbot são contextualizados dentro das relações
sociais. O que a Violência nesse sistema desconfigurado¿ Algo banal e que serve
ao poder. É o que o Sexo¿ Ferramenta para o Poder. Quero chamar atenção aqui
para a exposição da Tara Sexual da esposa de um CTO na série. Sua Tara: o
sadomasoquismo .Nada demais até aqui, Aliás, tara do casal. Os dois usam de
seus desejos com seus subordinados na escala social.(Tyrell E ae cabe a leitura
da critica da moral – burguesa . A moral da alta burguesia é hipócrita, como o
é, em larga escala, a mídia, o aparelho de Estado, as religiões oficiais. Mas
como se mostra sua hipocrisia¿ Pela desnudar do seu Fetiche. Se em Freud, o
Fetiche é um símbolo que oculta o verdadeiro objeto de desejo, a classe social
burguesa também oculta o seu verdadeiro desejo, tanto de si mesma, como das
outras classes sociais que são objeto de seu sadismo. E os atores se esmeram em
mostrar o sadismo da burguesia da cama ao cargo de Gerente de uma Corporação
Capitalista, porque o abuso sexual em cargos de Gerência é também a expressão
de uma dominação de uma classe social sobre a outra. Aqui fica uma fina
contraposição, em relação a Arte Contemporânea, que só “fala” sobre o Sexo
dentro do discurso dominante.
Outras Questões somam-se ao enredo de nosso Herói comum.
Fica difícil conceituar o jovem Elliot. Ele não é o herói, porque pouco nele há
que podemos desejar.Nem as suas fugas
temporárias e delírios, o seu uso constante de Heroína e sua anti-sociabilidade
o tornam atrativo. Mas também ele não é o Anti –Herói. Há momentos que torcemos
para que os Hackers e a FSociety exponha todas as mazelas do sistema. Afinal de
contas, não sabemos nada sobre as vultosas somas de dinheiro que as Corporações
e os Governos controlam, enquanto todos nós vivemos uma vida de Empréstimos.
Sim, o cidadão americano vive uma vida de Empréstimos: vida parcelada,
fragmentada, dividida. Talvez nosso personagem principal esconda na sua doença
mental, a esquizofrenia, uma tentativa de reunião dos aspectos fragmentários de
si mesmo. Sem a “prestação diária” que fazem os que bebem as sextas-feiras no
Happy Hour.
Na sua “esquizofrenia” ( e raros são os filmes e séries
que conseguem tocar em temas tão delicados como esse), nosso personagem
principal desafia o sistema. Os diálogos mostram ,como no clássico “O Ensaio sobre a Cegueira” de
Saramago, que só há um personagem lúcido, que vê. Elliot é um jovem sem beleza,
sem carisma, com uma doença mental, mas que é lúcido. E a sua esquizofrenia é
tentativa de reconstruir sua trajetória de vida, sua infância, o seu
relacionamento com a sua irmã(Darlene), seus poucos amigos e reconstruir(ou destruir)
o sistema que lhe oprimi. Como fala Michel Foucault “ não é a psiquiatria que
detém a verdade sobre a loucura, é a loucura que contém a verdade sobre a
psiquiatria”. Não é a Igreja e nem a
Psiquiatra que Elliot freqüenta que tem a verdade sobre o cisão do Homem, é a cisão do Homem que é A VERDADE sobre a lógica atual.Aliás, os
diálogos entre ele (Elliot)e sua psiquiatra são um brinde à parte.Reconstruir o
sistema mostrando as redes de corrupção
e segredos da elite mundial, das corporações, do jogo sujo da Mídia através de
uma tela de computador. Outros pontos adicionam-se a História como o problema
dos Refugiados, a vida fria das grandes cidades e o Jogo de Controle
Geopolítico entre EUA e China.
Mr. Robot não é para os marinheiros de primeira viagem na
existência,há uma complexidade notável na 1 e 3 Temporadas, dentro de um enredo
bem construído, com atuações marcantes e diálogos reveladores.E o telespectador
fica intimado a fazer o seu papel.Na
Linguagem da Informática , existe só dois códigos o 1 e o 0. Eu diria que o
telespectador deve escolher um deles para representar o seu papel da contemporaneidade,
embora o seu perfil político possa ser hackeado em cinco minutos no perfil nas
Redes Sociais e essa pergunta possa ser respondida por um Robô analisando seus
posts.Entre o 0 e 1 também não há um número inteiro, como também não há uma
solução para a Revolução de Elliot, como também não há uma solução para o mundo
Globalizado de Hoje, que não tem nem Heróis e nem Anti-Herois dispostos a
construir os Mitos.




Muito boa a crítica. Vou começar a assistir também...
ResponderExcluir