Pensando no fenômeno da
candidatura da extrema-direita Jair Bolsonaro e sua rápida adesão das massas
brasileiras ,estava refletindo sobre características que poderiam explicá-lo.
Basicamente, o seu discurso apela mais a emoção e a profundos instintos do seu
eleitorado. Além disso, podemos afirmar que as manifestações de junho de 2013
abriram uma “ janela de insatisfação” contra as condições de vida nos grandes
centros urbanos que não foi resolvida.Paralelamente a isso , acontecia a completa desmoralização dos “políticos
profissionais” por meio da operação Lava –Jato.
Bolsonaro e seu discurso
manipulam três afetos poderosos e quase instintivos para não dizer ao
eleitorado o seu verdadeiro plano político e econômico neoliberal radical. E aí
reside o fato de seu enorme sucesso: convencer a população por meio de símbolos
articulados, que pouca ou nenhuma relação
prática tem com o ideário neoliberal radical, mas ao mesmo tempo é vital
para as massas aderirem a ele.Sem esses símbolos, a população não teria aderido
a condução dessa ópera bufa. É necessário alguém para manipular o senso-comum
midiatizado. E isso Bolsonaro faz com maestria.
Dessa forma, explica-se a recusa
aos debates. Além de demonstrar sua fraqueza intelectual e seu despreparo
evidente, um debate implica em transformar em linguagem verbal , os símbolos
que Bolsonaro usa em seu discurso em linguagem política, em narrativas, em
propostas e em plano de Governo. Não é essa a questão aqui.
Quais são os símbolos que
manipulam os afetos? O primeiro é “ Deus” e tudo que significa uma segurança,
uma proteção, um porto seguro em mundo tão cheio de mudanças e transformações:
um quase retorno do Messias sagrado para ocupar o seu espaço no poder e sua
missão. O Segundo é arma. A arma que virou um sinal de sua candidatura através
da mímica de suas mãos é a posse da masculinidade, da virilidade para a geração
impotente e frustada na sua comezinha
vida cotidiana. A Arma ,não é só um substituto do falo, mas a posse de si ,
contra aqueles que me ameaçam. Os outros
podem ser os mais variados: esquerdistas, meu patrão, feministas chatas,
gente do “ politicamente correto”. Somos “nós” contra “eles”.O frustado precisa de um inimigo, real ou imaginário.Sua frustração completa-se na presença de seu inimigo e objeto de sua frustração.
O Terceiro símbolo é a “ criança
inocente”. A Criança é um poderoso símbolo inconsciente. Para uma geração
amedrontrada com a violência ,estupros e violações de Direitos básicos,o discurso da preservação das “ crianças” tem duplo
aspecto.Primeiramente, assegurar a continuidade do elo vital da vida e em
segundo, manipular o recalque sexual do adulto, em relação a imagem des-sexualizada das crianças. E aqui novamente temos a
criação de um inimigo a espreita? Quem são eles ?Professores, escolas, livros
do MEC e o PT. No limite, toda a
esquerda.
Assim nesse discurso simbólico e
concatenado a Esquerda invade o recanto mais sagrado da vida humana. O tabu do
sexo e da Religião. A Religião que é o único conforto em um mundo sem confortos,
se vê aviltada em um país que “ supostamente” quer solapar os fundamentos e
construir uma “ sociedade sem Deus”. Para esses, o “ pai” Jair Bolsonaro, representa o pai presente ,a ordem e a segurança (em mundo inseguro ) e psicanaliticamente
o Pai Divino. Ou , ao menos, o enviado desse Pai.
Com os símbolos discursivos,
manipula-se( e fundamentalmente esconde-se) o que ,eventualmente, um Governo Jair Bolsonaro fará de fato como governo:Reforma da
Previdência, Reforma Trabalhista e Privatização das Estatais. Como a população
rechaça uma “ lei trabalhista que beire a Informalidade” ,como ele mesmo disse,sua
candidatura foge (ou não precisa?)do espaço
público, para manipular as frustrações individuais e coletivas , através de
redes sociais e “fakes news”.O medo, o sexo e o fundamento divino da vida são
os sentimentos e afetos evocados.
Por isso ,não adianta a esquerda
e o próprio centro pedir “debate”. Debate é comparecer na arena pública e não é
essa a arena na qual se manipulam símbolos
e afetos tão poderosos e de maneira tão sórdida. O Debate,como quer o filósofo Habermas,pressupõe a razão comunicativa. E essa está, nesse momento, em outro pólo político.O esclarecimento é difícil em
tempos de linguagem memética, já que somos uma população tão estimulada por
cores, noticias, símbolos, narrativas e sob a escravidão do celular que não
consegue pensar e refletir, se não através de imagens e frases soltas.
Considere-se o leitor um guerreiro se chegou até aqui.
Um Guerreiro solitário que vê o
debate político chafurdar no abismo em nome do neoliberalismo mais brutal em
nome de Deus e da frustração de todos com a política e os políticos.

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