sábado, 27 de outubro de 2018

A Candidatura Jair Bolsonaro e a manipulação dos afetos




Pensando no fenômeno da candidatura da extrema-direita Jair Bolsonaro e sua rápida adesão das massas brasileiras ,estava refletindo sobre características  que poderiam explicá-lo.
Basicamente,  o seu discurso apela mais  a emoção e a profundos instintos do seu eleitorado. Além disso, podemos afirmar que as manifestações de junho de 2013 abriram uma “ janela de insatisfação” contra as condições de vida nos grandes centros urbanos que não foi resolvida.Paralelamente a isso  , acontecia a completa desmoralização dos “políticos profissionais” por meio da operação Lava –Jato.


Bolsonaro e seu discurso manipulam três afetos poderosos e quase instintivos para não dizer ao eleitorado o seu verdadeiro plano político e econômico neoliberal radical. E aí reside o fato de seu enorme sucesso: convencer a população por meio de símbolos articulados, que pouca ou nenhuma relação  prática tem com o ideário neoliberal radical, mas ao mesmo tempo é vital para as massas aderirem a ele.Sem esses símbolos, a população não teria aderido a condução dessa ópera bufa. É necessário alguém para manipular o senso-comum midiatizado. E isso Bolsonaro faz com maestria.

Dessa forma, explica-se a recusa aos debates. Além de demonstrar sua fraqueza intelectual e seu despreparo evidente, um debate implica em transformar em linguagem verbal , os símbolos que Bolsonaro usa em seu discurso em linguagem política, em narrativas, em propostas e em plano de Governo. Não é essa a questão aqui.

Quais são os símbolos que manipulam os afetos? O primeiro é “ Deus” e tudo que significa uma segurança, uma proteção, um porto seguro em mundo tão cheio de mudanças e transformações: um quase retorno do Messias sagrado para ocupar o seu espaço no poder e sua missão. O Segundo é arma. A arma que virou um sinal de sua candidatura através da mímica de suas mãos é a posse da masculinidade, da virilidade para a geração impotente e frustada  na sua comezinha vida cotidiana. A Arma ,não é só um substituto do falo, mas a posse de si , contra aqueles que me ameaçam.  Os outros podem ser os mais variados: esquerdistas, meu patrão, feministas chatas, gente do “ politicamente correto”. Somos “nós” contra “eles”.O frustado precisa de um inimigo, real ou imaginário.Sua frustração completa-se na presença de seu inimigo  e objeto de sua frustração.
O Terceiro símbolo é a “ criança inocente”. A Criança é um poderoso símbolo inconsciente. Para uma geração amedrontrada com a violência ,estupros e violações de Direitos básicos,o discurso  da  preservação das “ crianças” tem duplo aspecto.Primeiramente, assegurar a continuidade do elo vital da vida e em segundo, manipular o recalque sexual do adulto, em relação a imagem des-sexualizada  das crianças. E aqui novamente temos a criação de um inimigo a espreita? Quem são eles ?Professores, escolas, livros do MEC  e o PT. No limite, toda a esquerda.

Assim nesse discurso simbólico e concatenado a Esquerda invade o recanto mais sagrado da vida humana. O tabu do sexo e da Religião. A Religião que é o único conforto em um mundo sem confortos, se vê aviltada em um país que “ supostamente” quer solapar os fundamentos e construir uma “ sociedade sem Deus”. Para esses, o “ pai” Jair Bolsonaro,  representa  o pai presente ,a ordem e a segurança  (em mundo inseguro ) e psicanaliticamente o Pai Divino. Ou , ao menos, o enviado desse Pai.


Com os símbolos discursivos, manipula-se( e fundamentalmente esconde-se) o que ,eventualmente, um Governo Jair Bolsonaro fará de fato como governo:Reforma da Previdência, Reforma Trabalhista e Privatização das Estatais. Como a população rechaça uma “ lei trabalhista que beire a Informalidade” ,como ele mesmo disse,sua candidatura  foge (ou não precisa?)do espaço público, para manipular as frustrações individuais e coletivas , através de redes sociais e “fakes news”.O medo, o sexo e o fundamento divino da vida são os sentimentos e afetos evocados.

Por isso ,não adianta a esquerda e o próprio centro pedir “debate”. Debate é comparecer na arena pública e não é essa  a arena na qual se manipulam símbolos e afetos tão poderosos e de maneira tão sórdida. O Debate,como quer o filósofo Habermas,pressupõe  a razão comunicativa. E essa está, nesse momento, em outro pólo político.O  esclarecimento é difícil em tempos de linguagem memética, já que somos uma população tão estimulada por cores, noticias, símbolos, narrativas e sob a escravidão do celular que não consegue pensar e refletir, se não através de imagens e frases soltas. Considere-se o leitor um guerreiro se chegou até aqui.
Um Guerreiro solitário que vê o debate político chafurdar no abismo em nome do neoliberalismo mais brutal em nome de Deus e da frustração de todos com a política e os políticos.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Mr. Robott: entre o Capitalismo e a Esquizofrenia(e sem Spoilers)

Que a série Mr. Robbot é surpreendente disto sabemos. De um lado, conseguiu o grande feito (que talvez só tenha conseguido uma outra obra de escol, como Tempos Modernos) de ser crítica de capitalismo sem ser propaganda-mal elaborada ou um panfleto de uma proposta política vulgar.De outro lado é  um drama pessoal de um jovem programador (Elliot)e Hacker nas horas vagas que planeja a sua “ revolução alternativa” contra o Sistema de Corporações Capitalistas no EUA.   Entre a crítica social( ou seria a perfeição de desnudar do real) e o seu ponto de chegado, uma rede de conspirações e associações corruptas e sujas, o drama pessoal do “fazer a vida” de cada um nos EUA(o imigrante, o jovem branco de classe média baixa, os aspirantes a Gerentes e Diretores de grandes empresas) com o toque correto de violência e sexo banalizados pela lógica do sistema.E no meio disso tudo há Elliot , um jovem “esquizofrênico”.




            Talvez o ponto mais alto da crítica esteja no desnudar a realidade e não simplesmente dar sentido a ela. Mostrar a realidade de um mundo que embora estejamos nele, não percebemos. Não percebemos  os outsiders do sistema(pobres, imigrantes e excluídos) ,porque todos estão submersos na luta diária pela sobrevivência e todos (ou quase todos) estão aspirando ao seu cargo de Gerente ou Diretor.(CTO na série).Mas, a fotografia da série(tão bem aclamada pela crítica) capta esses instantes da realidade não- vista. E ,portanto, desnuda a paisagem de Wall Street com seus manifestantes e os grandes arranca-céus com seus mendigos expostos à olhos nus. Demonstra a Midia Americana,porque afinal ela mesma não passa de outra face do poder, como a polícia e o FBI , conforme se desenrola a trama e o espectador percebe que nada escapa aos olhos das grandes corporações capitalistas.Vemos a trama pelos olhos de Elliot que é o personagem principal e o narrador que compara a vida com a linguagem da programação da Informática .Nesse estágio avançado do capital, todos os estágios da vida humana estão submetidos a sua linguagem de dominação-libertação: a tecnológica. Esse paradoxo também é exposto de maneira magistral na Série? Podemos revolucionar o mundo através do Facebook? Marx dizia que a Tecnologia poderia libertar o homem do fardo do trabalho. Se não o Facebook(que é também  uma grande corporação) os Harckers podem fazer o seu Cyberativismo e derrubar o sistema.Até onde vai os limites de nosso personagem?



            Até o Sexo e a Violência que  quase sempre apelam para a provocação sensacionalista que as séries da atualidade exploram, em Mr. Robbot  são contextualizados dentro das relações sociais. O que a Violência nesse sistema desconfigurado¿ Algo banal e que serve ao poder. É o que o Sexo¿ Ferramenta para o Poder. Quero chamar atenção aqui para a exposição da Tara Sexual da esposa de um CTO na série. Sua Tara: o sadomasoquismo .Nada demais até aqui, Aliás, tara do casal. Os dois usam de seus desejos com seus subordinados na escala social.(Tyrell E ae cabe a leitura da critica da moral – burguesa . A moral da alta burguesia é hipócrita, como o é, em larga escala, a mídia, o aparelho de Estado, as religiões oficiais. Mas como se mostra sua hipocrisia¿ Pela desnudar do seu Fetiche. Se em Freud, o Fetiche é um símbolo que oculta o verdadeiro objeto de desejo, a classe social burguesa também oculta o seu verdadeiro desejo, tanto de si mesma, como das outras classes sociais que são objeto de seu sadismo. E os atores se esmeram em mostrar o sadismo da burguesia da cama ao cargo de Gerente de uma Corporação Capitalista, porque o abuso sexual em cargos de Gerência é também a expressão de uma dominação de uma classe social sobre a outra. Aqui fica uma fina contraposição, em relação a Arte Contemporânea, que só “fala” sobre o Sexo dentro do discurso dominante.





            Outras Questões somam-se ao enredo de nosso Herói comum. Fica difícil conceituar o jovem Elliot. Ele não é o herói, porque pouco nele há que  podemos desejar.Nem as suas fugas temporárias e delírios, o seu uso constante de Heroína e sua anti-sociabilidade o tornam atrativo. Mas também ele não é o Anti –Herói. Há momentos que torcemos para que os Hackers e a FSociety exponha todas as mazelas do sistema. Afinal de contas, não sabemos nada sobre as vultosas somas de dinheiro que as Corporações e os Governos controlam, enquanto todos nós vivemos uma vida de Empréstimos. Sim, o cidadão americano vive uma vida de Empréstimos: vida parcelada, fragmentada, dividida. Talvez nosso personagem principal esconda na sua doença mental, a esquizofrenia, uma tentativa de reunião dos aspectos fragmentários de si mesmo. Sem a “prestação diária” que fazem os que bebem as sextas-feiras no Happy Hour.
            Na sua “esquizofrenia” ( e raros são os filmes e séries que conseguem tocar em temas tão delicados como esse), nosso personagem principal desafia o sistema. Os diálogos mostram  ,como  no clássico “O Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago, que só há um personagem lúcido, que vê. Elliot é um jovem sem beleza, sem carisma, com uma doença mental, mas que é lúcido. E a sua esquizofrenia é tentativa de reconstruir sua trajetória de vida, sua infância, o seu relacionamento com a sua irmã(Darlene), seus poucos amigos e reconstruir(ou destruir) o sistema que lhe oprimi. Como fala Michel Foucault “ não é a psiquiatria que detém a verdade sobre a loucura, é a loucura que contém a verdade sobre a psiquiatria”. Não é  a Igreja e nem a Psiquiatra que Elliot freqüenta que tem a verdade sobre o  cisão do Homem, é a cisão do Homem que é  A VERDADE sobre a lógica atual.Aliás, os diálogos entre ele (Elliot)e sua psiquiatra são um brinde à parte.Reconstruir o sistema  mostrando as redes de corrupção e segredos da elite mundial, das corporações, do jogo sujo da Mídia através de uma tela de computador. Outros pontos adicionam-se a História como o problema dos Refugiados, a vida fria das grandes cidades e o Jogo de Controle Geopolítico entre EUA e China.


   

            Mr. Robot não é para os marinheiros de primeira viagem na existência,há uma complexidade notável na 1 e 3 Temporadas, dentro de um enredo bem construído, com atuações marcantes e diálogos reveladores.E o telespectador fica intimado  a fazer o seu papel.Na Linguagem da Informática , existe só dois códigos o 1 e o 0. Eu diria que o telespectador deve escolher um deles para representar o seu papel da contemporaneidade, embora o seu perfil político possa ser hackeado em cinco minutos no perfil nas Redes Sociais e essa pergunta possa ser respondida por um Robô analisando seus posts.Entre o 0 e 1 também não há um número inteiro, como também não há uma solução para a Revolução de Elliot, como também não há uma solução para o mundo Globalizado de Hoje, que não tem nem Heróis e nem Anti-Herois dispostos a construir os Mitos.